Após universidade em que estudava ser bombardeada na Síria, refugiada encontrou acolhimento na UFPR e inspirou criação de novas políticas públicas

  • 06/06/2026
(Foto: Reprodução)
Refugiada encontrou acolhimento na UFPR e inspirou criação de novas políticas públicas Foi a coincidência de um encontro que mudou o rumo da vida de Lucia Loxca e das políticas de acolhimento de migrantes e refugiados na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em 2013, Lucia cursava o terceiro ano de Arquitetura na Universidade de Alepo, na Síria, em meio à guerra civil que irrompeu no país. Naquele ano, um ataque interrompeu os estudos da jovem e adiou o sonho de se tornar arquiteta: a universidade foi bombardeada, resultando na morte de 46 estudantes. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp Com o agravamento do conflito, Lucia e a família deixaram o país. E foi o Brasil que os acolheu como refugiados de guerra. Ela se estabeleceu em Curitiba. A escolha pela cidade, segundo Lucia, foi influenciada pelo amor à arquitetura, uma vez que a capital paranaense é reconhecida como cidade modelo nesse aspecto. Com o deslocamento, uma nova casa, uma língua diferente, tendo deixado toda uma vida e amigos para trás, a arquitetura ficou em segundo plano. A vontade de retomar os estudos, porém, nunca desapareceu. Para conseguir concluir a graduação, ela procurou por faculdades particulares na cidade, mas, sem falar português, não conseguiu ingressar em nenhuma instituição. Foi então que a UFPR entrou no caminho dela. Motivada pelo marido, também arquiteto, ela fez uma visita à universidade. "Eu tentei fazer entrevistas, entregar meus documentos para várias faculdades, mas nenhuma delas me aceitou, porque eu não falava a língua. A minha última tentativa foi na federal. Meu marido me convenceu e eu não queria muito ir, porque já quase tinha desistido. Mas ele me convenceu a fazer uma última tentativa", relembra. E foi nos corredores vazios do Centro Politécnico da UFPR, já no fim de dezembro de 2013, que o caminho de Lucia cruzou com o do professor Paulo Chiesa — na época, o coordenador do curso de Arquitetura. Na condição de refugiada, Lucia encontrou acolhimento na UFPR e inspirou políticas públicas para migrantes na universidade Divulgação/Agência Escola UFPR Mesmo com dificuldades no idioma, a síria detalhou ao professor sobre a condição de refugiada. "Expliquei toda a minha situação, falei de todos os documentos que eu consegui trazer embaixo das bombas da Síria", conta Lucia. Em um primeiro momento, Chiesa recomendou que ela procurasse por faculdades particulares, visto que a universidade federal ainda não tinha políticas estruturadas de acolhimento aos refugiados. Porém, a história de Lucia e essa falta de políticas públicas que atendessem à situação inquietaram o professor, que, anos antes, havia participado de uma formação do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) sobre o direito internacional de pessoas forçadas a se deslocar para outro país. Sensibilizado, Chiesa levou o caso para a reitoria da universidade. Inspirada por um modelo adotado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a UFPR criou, em tempo recorde, um plano para o acolhimento de refugiados. Com isso, Lucia se tornou a primeira refugiada matriculada na Universidade Federal do Paraná. O caso dela serviu de modelo para que a instituição discutisse e aprovasse uma resolução específica sobre o tema. Mais de 10 anos depois do encontro entre Lucia e Chiesa, a universidade se tornou referência nas políticas públicas de acolhimento de migrantes e refugiados. Universidade Federal do Paraná UFPR/Divulgação Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) destacou que a UFPR "tem demonstrado um forte compromisso institucional com a promoção da integração de migrantes e refugiados na sociedade por meio da educação e do trabalho". O documento aponta que o impacto é significativo em dois aspectos: "no acolhimento a esse número de pessoas que estão se deslocando e na universidade acolher e se preparar para permanência e o apoio sistemático a essas pessoas." Para o professor Chiesa, estar aberta a receber novos públicos faz parte da essência da universidade. "Acolhendo a política de cotas sociais, acolhendo a política de refugiados e dos migrantes, a Federal do Paraná presta a função para a qual foi construída. É uma universidade pública. Ela tem que ser exemplo", defende Chiesa. Da matrícula à permanência O canudo conquistado por Lucia em 2017 Reprodução/RPC A matrícula não era o primeiro obstáculo a ser superado por Lucia. Era preciso garantir as condições para a permanência dela na universidade. As aulas de português para estrangeiros foram a próxima etapa. No Centro de Línguas e Interculturalidade (Celin) da universidade, Lucia pôde se familiarizar com o idioma por meio do qual aprenderia a profissão. "Eu nunca escutei a língua portuguesa antes [de chegar ao Brasil]", conta. No percurso, ela contou também com a ajuda e solidariedade de colegas e professores. "Os professores me ajudaram muito, deixavam que eu fizesse todas as provas em inglês, pelo menos no primeiro semestre. E meus colegas me ajudaram a traduzir as aulas, me apoiaram muito, me acolheram muito bem, especialmente no início", lembra a arquiteta. Foram três longos anos até a formatura, em agosto de 2017. "Aquele momento foi um milagre na minha vida, em que eu consegui realizar um sonho que estava na minha cabeça há muitos anos. Lembrei de todo o sofrimento que eu passei na Síria, na guerra, de todas as pessoas que sofreram, que não conseguiram continuar realizando os sonhos delas, as pessoas que morreram, infelizmente, no meio do caminho", relata Lucia. "Eu fiquei super orgulhosa de mim, de ter conseguido representar o meu país dessa maneira. De mostrar para o Brasil que nós somos refugiados e que, se a gente tem um sonho, a gente é capaz. Com estudo, a gente consegue conquistar qualquer coisa no mundo." Lucia Loxca na colação de grau, em 2017 Reprodução/RPC O aperfeiçoamento das políticas de acolhimento da UFPR não se encerrou com a formatura de Lucia. O processo pelo qual ela passou inspirou a criação de protocolos para os alunos migrantes e refugiados que acessaram a universidade depois. "Não adianta só conseguir ingressar na universidade. É importante que ele continue", defende Nathielly Daiany Oliveira Santos, coordenadora de Acolhimento e Trajetórias Acadêmicas de Estudantes Internacionais e Migrantes. Desde 2018, a UFPR tem um vestibular focado em pessoas vindas de outros países que desejam ingressar pela primeira vez em um curso de graduação no Brasil ou retomar estudos iniciados no exterior e não concluídos. Por meio dele e do reaproveitamento de vagas remanescentes – quando a universidade reabre vagas que ficaram ociosas por abandono de curso, cancelamento ou transferência para outras instituições –, mais de 270 estudantes migrantes e refugiados tiveram acesso ao Ensino Superior. A instituição oferece também acolhimento psicológico, tutoria e orientação a esses estudantes, por meio de um projeto desenvolvido com estudantes e professores do curso de Psicologia. Além disso, oferece atendimento jurídico informativo, acolhimento e orientação sobre ingresso, revalidação de diploma e revalidação do Ensino Médio, em uma iniciativa criada por professores e estudantes de Direito. Serviços são oferecidos na Sala 28 do Prédio Histórico da UFPR Giovani Pereira Sella/Agência Escola UFPR Entre as políticas voltadas para migrantes e refugiados dentro da universidade após a chegada de Lucia está a criação da Coordenadoria de Acolhimento e Trajetórias Acadêmicas de Estudantes Internacionais e Migrantes (Catrim), em agosto de 2025. Nesse setor, estudantes estrangeiros são acompanhados semestralmente por uma equipe dedicada a essa função. Antes, isso era feito por voluntários. O rendimento acadêmico dos alunos e a distribuição de bolsas são alguns dos pontos sob a supervisão da Catrim. Segundo a coordenadora Nathielly Santos, esse acompanhamento permite desenvolver ações com base na experiência dos estudantes, auxiliando na relação com a coordenação do curso e com outras instâncias da universidade. "Quando a gente traz isso para a instituição, muda totalmente o olhar. Porque você traz isso como uma responsabilidade institucional", defende a coordenadora. Para pessoas migrantes e refugiadas já formadas, a universidade oferece o serviço de revalidação de diplomas de maneira gratuita. O processo é simplificado e considera dificuldades enfrentadas por pessoas que tiveram que deixar o país em que viviam, como a ausência de alguns documentos que geralmente são exigidos por outras instituições. Em 2025, foram 231 diplomas revalidados pela UFPR. A ação facilita o acesso ao mercado de trabalho formal, na área de formação do migrante ou refugiado. Apesar de todos os avanços, a coordenadora da Catrim ainda vê espaço para ampliação e fortalecimento dessas políticas de acolhimento. "A gente se reúne com antecedência, identifica falhas do processo anterior e fica o tempo todo pensando em formas de simplificar o processo, de achar brechas nas normativas que já estão defasadas. Dez anos antes, as normativas tinham outro público, era outro momento. Agora elas já não atendem mais isso. Em contrapartida, a gente tem outras questões também. Porque às vezes a gente abre demais, simplifica muito o acesso, mas, um passo à frente, os alunos vão ter uma barreira e dificuldade de permanecer", ressalta Nathielly. Aprendizados e conexões mútuas Não são apenas os migrantes e refugiados que se beneficiam com a chegada de novas culturas e experiências na universidade. Estudantes, professores e a instituição como um todo reconhecem que é uma troca mútua. Os migrantes colaboram com a ampliação de saberes, trazendo perspectivas diferentes que, às vezes, precisam vir do outro lado do mundo para iluminar o debate. Na experiência da UFPR, mesmo após a formação, os estudantes migrantes e refugiados buscam retribuir o apoio que tiveram da universidade que os acolheu quando os caminhos no novo país ainda eram incertos. Foi assim com Lucia, que voltou à universidade quase 10 anos depois de se formar para falar aos estudantes do curso sobre a arquitetura do país em que nasceu. "É uma troca cultural muito rica. Eu falei sobre a arquitetura árabe, os detalhes e as técnicas, para os brasileiros conhecerem. Porque, no final das contas, a gente estuda na faculdade, mas a gente não consegue aprender sobre a arquitetura do mundo inteiro", explica. O professor Chiesa resume essa valorização do encontro com o diferente: "Tem espaço para todo mundo, sabe? A gente enriquece muito a nossa cultura, a nossa postura filosófica de vida." Após quase 10 anos formada, Lucia voltou à universidade para falar sobre a arquitetura síria estudantes Arquivo Pessoal/Paulo Chiesa *Com colaboração de Matheus Karam, assistente de produtos digitais do g1 Paraná, sob supervisão de Mariah Colombo e Douglas Maia. VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná

FONTE: https://g1.globo.com/pr/parana/educacao/noticia/2026/06/06/apos-universidade-em-que-estudava-ser-bombardeada-na-siria-refugiada-encontrou-acolhimento-na-ufpr-e-inspirou-criacao-de-novas-politicas-publicas.ghtml


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